domingo, 20 de janeiro de 2013

O universo curvo


"De curvas é feito todo o universo"
Albert Einstein.

          As obras de Oscar Niemeyer são mundialmente conhecidas por suas linhas, sua impressão de leveza; a frase acima, do celebre físico germano-judaico, era sempre lembrada pelo artista da leveza em concreto. Ao escutar essa frase, que confesso até pouco tempo não conhecia, me vi impelido a meditar sobre as idas e vindas de nossas almas por esse universo curvo; no último dia 23 de novembro passou pela transição um grande amigo, um sábio, um estudante e praticante dos conhecimentos arcanos, nas áreas de filosofia, teologia, misticismo, judaísmo e outras. Ele atuou, digo atuou porque além de estudar, absorvendo o conhecimentos dos antigos sábios, ele desenvolveu seus próprios conhecimentos, contribuindo assim para a construção dos saberes de vários estudantes que tiveram a grata oportunidade de conviver com ele. Quando vemos tantos sábios que por este plano já passaram, por vezes pensamos que nada podemos, como simples estudantes que somos, acrescentar mas, este é um erro crasso; todos nós temos a nossa experiencia individual, nosso próprio saber, particularmente entendo como erro não interagirmos uns com os outros dando oportunidade de que outros conheçam o saber que construímos e, claro, conhecendo o saber alheio; essa prática, de trocar conhecimentos, enriquece nosso próprio saber, aperfeiçoando-o; hoje vejo nitidamente onde aquele sábio "garoto grisalho" contribuiu para a construção do meu saber e, consequentemente, de quem sou, essa é a beleza de doar, o pouquíssimo saber que acumulei pode servir de chave para uma questão que atormentava o meu irmão e dali ele pode alçar vôos que eu mesmo jamais farei mas, nos quais terei minha parcela de participação.

Vivo minha vida 
dela tiro minhas próprias experiências,
no entanto,
nada me impede de aprender das tuas
e assim evitar suas consequências

Ser pensante sim
limitado no acanhado espaço-tempo,
no entanto,
nada me impede de pedir a tua ajuda
e aprender de seu momento

Opinião tenho sim
limitada na minha própria existência,
no entanto,
nada me impede de ouvir teu testemunho
e mudar uma sentença.
Fr Michel Figueira.

Pax

sábado, 29 de dezembro de 2012

A fraternidade e a educação


Sempre se escuta a frase: "educação se traz de casa" no sentido de que boa educação é algo que se aprende no seio familiar, hoje faz exatamente um mês que estou trabalhando num quartel pequeno, perto de casa, na verdade comparado com o QCG esse é micro, ali estive observando a família que se formou, pessoas que passam ao menos dois dias da semana juntos, são dois dias inteiros, ou seja, 48 horas, é um tempo considerável, todos acabam se conhecendo muito bem, interessantemente ali todos conhecem os defeitos uns dos outros entretanto, também reconhecem as virtudes uns dos outros; isso é algo notável pois em diversos lugares onde teoricamente a fraternidade deveria ser praticada não se constata essa prática, esses lugares são igrejas, centros espíritas, terreiros, lojas e vários locais que têm uma missão espiritualista e/ou filosófica.
Comecei a tentar entender porque se observa esse fenômeno e acredito que entendi seu funcionamento, muitas famílias, quando digo família estou falando da célula mater da sociedade, onde passamos nossa primeira infância, sofrem problemas e não praticam a fraternidade; lá os valores são adquiridos, lá recebemos os bens mais valiosos que jamais receberemos em toda nossa vida, responsabilidade, ombridade, humildade, honestidade, e outros; todos valores que levaremos por nossa vida adquirimos ali, mas muito do que foi dito tem seu valor diminuído pois disso se subtrai o que foi feito, numa família onde o pai de uma criança tem relações cortadas com o tio desta ela entende que pode cortar relações com seu irmão, o pai destas duas pessoas pode falar em fraternidade durante vinte anos, mas tudo será nulo enquanto ele mesmo não reatar relações saudáveis com seu irmão, muitos dos amados sabem que este signatário foi pai jovem, aos 18 anos, mas pela graça do Eterno, jovem ainda aprendeu o valor do exemplo, nada do que se fala para um filho, um irmão, um sobrinho, um esposo, um amigo, um colega de trabalho, um conhecido, ou mesmo para aquele balconista do qual você nem viu o rosto, pode ser diferente do que se faz, há de existir razoabilidade, coerência entre o que se fala e o que se faz; a máxima: "faça o que eu digo, mas não o que eu faço"; é tremendamente equivocada, sempre me lembra ditadura, tirania, autoritarismo, e antagoniza a frase do mestre documentada no livro de São Mateus, capítulo 7, versículo 12: "tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós".
Entendo que ser família, é praticar a fraternidade, que todos os homens são irmãos, entendo também que praticar a fraternidade é oferecer antes o que é preciso e depois o que se quer, observo que em nossa sociedade de consumo muitos são os bens físicos oferecidos porém poucos os psicológicos, não estamos ensinando aos nossos filhos o valor das pessoas, não estamos ensinando aos nossos irmãos, seja de qual grau de parentesco for, o valor que todos temos pelo que que somos independente do que possuímos portanto, tenhamos em mente que todo ser tem seus méritos e alinhemos nossos pensamentos, palavras e ações.

Salutem Punctis Trianguli .'.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O pecado da curiosidade



Há séculos a curiosidade foi tratada como pecado, muitas vezes, ainda hoje surpreendemo-nos com certo sentimento de vergonha, curiosos por algum assunto; é o resultado de anos de treinamento ao conformismo; ao longo da história temos exemplos de buscadores da sabedoria que foram perseguidos, martirizados ou presos, como Galileo Galilei, que além de preso foi condenado a abjurar, ou seja, voltar atrás em suas afirmações (sobre a questão do heliocentrismo). Também digna de consideração é a questão de qual é o foco de nossa curiosidade, ou ainda melhor, qual sua intenção; para o direito a intenção é algo a ser sempre avaliado, o que determina dolo ou culpa; aplicado ao nosso assunto diria que determina seu caráter, é como a diferença entre o psicanalista, que buscando nos detalhes do cotidiano do indivíduo tenta estabelecer aspectos da personalidade parar poder determinar um auxílio, e o fofoqueiro, que apontando defeitos talvez nem existentes procura julgar-se superior pela inferiorização do próximo.
No estudo da curiosidade e do pecado vejo-me impelido a considerar o pecado original, na tradição bíblica, aquele cometido por Adão e Eva causando sua exclusão do paraíso; não tenho aqui a pretensão de dar a última palavra em interpretação desse texto, mas apenas dar uma das minhas interpretações; acho bastante razoável identificar esse como sendo um pecado de curiosidade; eles, os ancestrais primevos, se viram curiosos, podiam falar com Deus e com a natureza, mas não podiam ter o conhecimento do bem e do mal, esses devaneios me levam a contemplar a questão do ser como o menino para poder entrar no reino dos céus, ou seria para poder voltar ao paraíso? Podemos admitir por analogia que Adão e Eva podiam alimentar-se de todo o conhecimento disponível naquele universo (jardim), entretanto jamais do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, que fruto será esse?
Hoje entendemos que curiosidade é olhar à frente, buscar evolução; sempre lembrando que não existe lei nova no universo apenas novos entendimentos possíveis pela evolução da consciência humana, basta observar o versículo 21 do capítulo 5, da primeira epístola de São Paulo aos tessalonicenses: Examinai tudo, retende o que é bom. Portanto onde acreditávamos haver o pecado da curiosidade percebemos que existia somente nossa própria consciência submetida a entendimentos dogmáticos alheios, assim tentemos eliminar de nossas consciências preconceitos e medos, foquemo-las em curiosidades sadias e deixemos o dom maior de Deus manifestar-se em nossas vidas, a própria consciência.

Osculum Pacis !

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Deus é Laico



Contribuição do amigo JD Lucas, a quem agradeço por me confiar esse texto.

A religião foi a maneira que o homem primitivo encontrou para lidar com suas questões sem solução, um impulso surgido da necessidade de um aspecto transcendente operando por trás da realidade. Em princípio, os deuses assumiam formas ou manifestavam-se através dos aspectos naturais, e todo o paganismo deriva dessa disposição. Adiante, com a sofisticação da escrita em decorrência da criação de códigos sociais — que ampliou a interação entre dois sujeitos que compartilhavam o mesmo sistema linguístico — aqueles mais letrados passaram a impor sua religião como única, ou mais aceitável, associando o valor do sentimento religioso proporcionalmente ao valor do conhecimento adquirido sobre a natureza. O preço dessa operação foi morte do mito, ou sua imersão no desconhecido. 
Todos os fatos, acontecimentos e por quês advém, no entanto, da mesma raiz comum a homens e mulheres, e o mito é uma realidade inerente a todo ser. A substituição do paganismo em grande parte do ocidente por uma religião de credo monoteísta surge para agrupar aqueles aspectos naturais que antes tinham vontade e personalidade própria, para formar um todo ultra-consciente que conecte tantos aspectos errantes numa mesma unidade conceitual. Assim, você tem a destruição de milhares de deuses em troca do nascimento de um apenas-Ele, responsável desde já, pela fundação da realidade, como se outros deuses nunca tivessem existido ou não tivessem importância. Então, a consolidação do monoteísmo no ocidente, à medida que o homem adquire e quantifica conhecimento sobre si, é ele mesmo símbolo dessa unificação de aspectos díspares de influência da natureza em um só aspecto permeando todas as coisas. Uma só lei, Uma só causa. 
Com o advento do cristianismo, um novo e importante dado é acrescentado, e vem transformar pra valer a concepção de divindade. Sendo um desdobramento daquela essência una, Cristo é o Deus feito carne, um homem por todos os homens, o que leva a informação mitológica do herói (Hércules, Odisseu, Ajax... pra citar os gregos) novamente às alcovas, onde mais se carece de uma intervenção divina; Dalí, a informação se espalha e, com o acréscimo gradativo dos aspectos míticos gerado pelo boato (milagres, sabedoria, ascendência divina...) temos um mito que surge forte o suficiente pra desbancar divindades muito antigas, como o Mitra grego ou o Hórus egípcio. Valendo-se de estratégias humanamente sagazes e simples, o corpo do que seria mais tarde a igreja católica, associa aspectos míticos de outras crenças no intuito de criar identificação com as pessoas, que carentes de espelhos transcendentais, volta-se para o absolutamente novo filho de deus.
A humanidade atinge dessa forma, com a ascensão crística, um valor que a própria concepção política da Igreja não pode prever. A ideia de que cada um, em sua individualidade, tem capacidade e competência para realizar-se de forma plena. Simbolicamente, é como se, com a ascensão de Cristo, Deus também tivesse deixado pra trás os templos, e postulasse que só vivendo inteiramente a própria individualidade e retirando-se de toda mediocridade de pensamento e ação, será possível alcançar o Céu, ainda que todo erro e ilusão sejam necessários. Prova disso é que no relato do mito da crucificação, Cristo exprime, perplexo: “Meu deus, meu deus, por que me abandonaste?”, como um ato tardio de dúvida que o torna humano. Foi abandonado na cruz, desfeita toda sua ilusão. A resposta transcendente à sua realização é a ascensão em corpo e espírito aos céus, a ressurreição propriamente dita.
Ninguém pode afirmar de fato se Jesus existiu, ou sobre os milagres que realizou, mas por haver um Cristo, quer dizer, um Salvador associado ao sentimento religioso do mundo, um mito tão atuante sobre a auto-realização aponta principalmente para o fato de que deus, a mônada, não está preso ao templo ou à filosofia, sequer está preso a algo, quer sejam as concepções mais restritas ou libertárias. Pra realizar-se plena e satisfatoriamente, o conceito ultrapassa toda limitação, inclusive as lingüísticas, e se estabelece para além do discurso, muito além, para dentro.
Então esse texto atinge o máximo de sentido que pode atingir e termina.

Tolerância, opinião e sabedoria


Ter opinião parece uma exigência, devemos concordar ou discordar, devemos gostar ou não, achar bom ou ruim, mas porque temos essa obrigação? Arrisco dizer que é por conta de vivemos na era da informação e, como todos temos a informação, devemos fazer algo com ela, tomarmos partido. Talvez tenhamos uma ou duas alternativas, talvez possamos simplesmente entender que não dispomos de informação suficiente para tomar alguma decisão, ou talvez possamos dizer que, e eu digo isso sempre, agora eu entendo assim, mas posso mudar completamente de ideia daqui a um momento; com essas informações chego ao assunto do respeito a opinião alheia.
Tolerância não é um termo que acredito adequado ao assunto, quem tolera é de alguma forma superior, permitindo que algo inferior se manifeste; prefiro entender que devemos é respeito e consideração, respeito porque a opinião alheia foi gerada a partir da experiência pessoal do indivíduo, e esse individuo tem o mesmo direito que nós ao seu próprio entendimento; consideração porque essa experiência pessoal pode ser tão ou mais interessante que a nossa própria, por isso devemos considerar e sermos serenos ao tomar nossas posições em relações a assuntos delicados, principalmente quando em discussão que pode atingir pessoalmente outrem; quem fala pouco erra pouco, esse é um adágio comprovadíssimo, portanto aconselho que sejamos modestos, evitando tomadas ostensivas e definitivas de posição, podemos mudar e opinião e então estaremos presos pela palavra, por nosso próprio ego que tenta nos impedir de voltar atrás, lembro as palavras do evangelista Mateus, no versículo 11 do capítulo 15 de seu livro: "O que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem". Outra questão interessante é que essa serenidade não deve ser confundida com apatia, não devemos ficar "em cima do muro", existem situações que demandam posição, ação, resposta imediata, é aí que devemos ter sabedoria, resolvendo os assuntos de forma a possibilitar que eles permaneçam resolvidos e não se tornem outros problemas.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do camnho
no meio do caminho tinha uma pedra

Carlos Drummond de Andrade
publicado na Revista de Antropofagia, 1928
depois em Alguma Poesia, 1930

Drummond de Andrade hoje completa 110 anos de seu nascimento, mais um gênio que se apresentou naquele momento único da literatura (do pensamento) brasileira.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Lei do Antropófago


"Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago" Oswald de Souza, Manifesto Antropofágico, 1928.

Incrível como a arte em suas diversas apresentações materializa experiências místicas/espirituais, essa frase é parte do Manifesto Antropofágico que recomendo que leiamos, seu autor foi o principal agitador cultural de sua época e iniciador do modernismo brasileiro. A imagem acima é um exemplo pictórico daquele momento, é o Abaporu (homem que come, Tupi Guarani) de Tarsila do Amaral, também de 1928.